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17 de setembro de 2015

Imagino o dia em que me apareces à porta

Imagino o dia em que me apareces à porta. Imagino a minha reação e todos os dias imagino uma diferente. Não compreendo o limite do que amo. Amo tanto. Amo-te tanto. Todos os dias. E amanhã... odeio-te. Odeio-te tanto.
Espero que a minha reação seja como aquela que te viu ir embora, enquanto de empurrei pelo elevador. Essa seria a reação que imagino neste instante. Não quereres ir. Empurrar-te. Saber que fomos felizes. Saber que vais voltar em minutos. 
Nunca o sol brilhou tanto naquela cidade. Acordou feliz e adormeceu aconchegado. Vivemos. Rimos. Conversamos. Lemos. Ouvimos. Dançamos contemporânea. Fomos felizes. Sei que sou feliz quando danço contemporânea no chão do quarto. 
E tu? Livre. Sempre foste. Como um pássaro. E que bem que ficava um jogo de nomes de pássaros com o teu nome. Que bem que ficava. Que saudades de juntar qualquer palavra com as vogais do teu nome e disso resultar palavras como mamélsias. Essa foi a minha melhor criação e tu, ao ouvi-la, gritaste, com toda a força e como só tu sabes fazê-lo. Que grito. Que voz. 
Não vou fazer mais jogos de nomes. Não vou pensar mais no sol que brilhava lá fora enquanto se dançava no chão. Sabes porquê? Porque a música já não é a mesma e tu...tu foste embora de empurrão e nunca vais voltaste. Eu? Eu vou tirar a mão do queixo e não vou pensar mais nisto. Imagino o dia em que me apareces à porta. Imagino a minha reação. Espero que seja aquela que deveria ter tido quando te empurrei para o elevador. Aquela que eu queria ter tido se soubesse que nunca mais voltarias. 
Eu sei que fui eu quem te empurrou. Eu sei. Culpa-me por isso. Culpo-te por tanta outra coisa. Não me perguntes por que razão me fui embora. Ainda não sei responder-te. Não o faças. Nunca mais o faças. Cada letra dessa pergunta é dor. 
Se valeu a pena? Imagino o dia em que me apareces à porta.



Adeus

O número é o mesmo

Estava com medo que nunca mais viesses aqui. Estás aí. Eu sei que estás aí. Foges de tudo, não é? 
Sabes que te vão dizer as mesmas palavras até deixares de seres como tens sido. Não interessa. Não é isso que quero que saibas. Sábado é para nós, sabes? Mais para mim do que para ti, é verdade. Tu lembras-te do primeiro, tal como eu. E do segundo, que a garcia atirou para praça pública. Vão estar todos lá, em papel. Todos. São teus, e tu sabes. São nossos. Quero saber de ti. Nunca te senti tão longe. Onde paraste, desta vez? Continuas a cozinhar às 4 da manhã? Continuas a ser a Consuela que todos querem ter em casa? Continuas a respirar alto e a falar à tenor? Continuas a ver o Hollywood enquanto passas a língua na mortalha e a ostentar o nariz como nada fosse? Continuas a ser irónico, arrogante e insolente, como o pavão um dia disse? Liga-me, o número é o mesmo.

Adeus

23 de junho de 2015

Parabéns à criança dos meus olhos

O meu único primo nasceu neste dia, há dois anos. Estive 18 horas no bloco de partos. Vi-o nascer, vi-o crescer e agora vejo-o somar anos. É difícil pensarmos que a vida passa rápido mas é tão bom quando o bebé que vimos chorar pela sua primeira vez já corre e destrói tudo em casa. Habituamo-nos à banda sonora do canal Panda e os Caricas passam a ser os nossos Dire Straits. Quando o vou buscar ao infantário fica tão feliz de me ver e eu fico de coração cheio por ele gostar tanto de mim. A verdade é que ele até ficaria feliz de ver o lobo mau, se esse o tirasse do infantário. Quando chega lá a casa, as gatas fogem-lhe como não houvesse amanhã. Percebo-as. Ele faz delas gato sapato. Corre atrás das bichas a soltar gargalhadas, puxa-lhes os bigodes, empurra-as para se deitarem e dá-lhes palmadas - pensa ele que de carinho - em todo o corpo. Elas obedecem e não lhe fazem mal. Ele adora azucrinar as minhas princesas e eu deixo. Deixo porque ele é o meu príncipe. Gosto tanto dele. É parte de mim, mesmo não sendo. Um dia, na noite de ano novo, desejei que a minha tia nos desse uma alegria destas. E que alegria foi. E que alegria é.
Parabéns à criança dos meus olhos. Parabéns ao "jeitoso". Parabéns ao Eduardo.




Adeus

21 de junho de 2015

Ainda há génios vivos

Hoje fiquei na praia até àquela hora de sol confortável. Aquele sol que não queima na pele mas que aquece. Aquela altura do dia em que os óculos de sol são recolhidos e tudo fica mais livre, mais suave e mais quente ao olhar. 
Quando subi as escadas de casa já eram oito e meia e eu a meia hora do início de um concerto que tinha prometido ver. Faltava-me tomar banho, vestir-me, jantar e chegar ao Chiado. Parecia-me impossível mas na meta estava Jorge Palma e rápido quebrei as barreiras. 
Rodei a chave, atirei com tudo para cima da cama, peguei na toalha da cabeça, no roupão e abri a água morna. 
Sentia entusiasmo e o pouco tempo que tinha nem permitiu que a ansiedade viesse incomodar.
Peguei na pulseira do pé, no relógio, no batom, no anel olho de tigre e espetei tudo na mala. Enquanto descia as escadas já o relógio agarrava o meu pulso e o anel estava pronto a juntar-se ao indicador.
Uns metros a compor-me e rápido cheguei à parte em que deixei de ter qualquer responsabilidade no relógio. A parte do transporte. Sabia que podia estar até quinze minutos à espera do 15E. No momento em que cheguei à paragem vi que faltava um minuto. Digo-vos, meus caros, não há nada melhor do que ver um minuto no placar da Carris. Pus o meu batom vermelho no elétrico, com uma plateia de dois indianos e alguns estrangeiros. Não estava com pudores, ia ver Jorge Palma e queria estar bonita. 
O jantar ficou adiado e o meu estômago, como não tem olhos nem ouvidos, pouco quis saber onde eu ia e queixava-se como nunca. 
Corri com o GPS na mão e lá cheguei, ao Teatro São Luiz. 
Enquanto comprava o bilhete já lhe ouvia a voz. Entrei nas palmas da segunda música. Sentei-me. Por momentos nem acreditei que estava ali, depois de tanta correria.
Só foram precisos dois segundos para tudo valer a pena. A voz, as notas do piano, os cabelos cinzentos, o suor e a saliva que saltava a cada verso, visível através da luz que cruzava o palco. Dois segundos foram suficientes para encher os olhos de lágrimas. Não por ser o Jorge Palma, a pessoa  atrás do artista, mas por serem aquelas letras, aquele compositor, aquele cérebro, aquele momento e aquelas músicas, que tanto significam.
O fim do concerto foi a gota de água, literalmente. Talvez o universo lhe tenha dito mas a minha favorita era mesmo aquela última, A gente vai continuar. Completamente arrebatador. Senti tanto que desse tanto pouco pensei sentir. Senti-me leve e feliz. Aquelas notas fizeram-me infinita. 
Pousei nas nuvens e nada existia para além da audição. Naquele momento reencontrei-me. E que belo encontro que foi.
O concerto era dividido com a fadista Aldina Duarte. Não a conhecia em palco e impressionou-me. Senti o fado como deve ser sentido, a tremer nos últimos versos. Culpam-se as letras anteriores de Palma, é certo, mas a verdade é que até Aldina Duarte o referiu como um génio e disse que se houve alguém que a ensinou a conjugar o verbo Sonhar, foi ele. Eu diria que com ele aprendi a conjugação do verbo Amar. Ninguém escreve tão bem amor em música. No bairro do amor do mundo de Palma, não há prisões nem hospitais e cada um tem de tratar das suas nódoas negras sentimentais. E, enquanto eu tiro a mão do queixo e não penso mais nisto,  penso que o que lá vai já deu o que tinha a dar. Mas...é nestes momentos que me submeto a um estado de nada. A um choque pós reencontro. É nestes momentos em que atinjo o estado em que enquanto houver estrada para andar, penso que a gente vai continuar. 



Itálicos de Jorge Palma: "Bairro do Amor" e "A gente vai continuar".

Adeus

2 de maio de 2015

Até já, cidade maravilhosa.

Voltar a Vila Real é sempre um misto de emoções. As memórias, os sítios, as pronúncias, as curvas da ip4, os constantes menos dois graus em relação ao resto do país, os caloiros que já não são caloiros, as paixões, as amizades, os que nos são indiferentes mas que, ao lá chegarmos, até nos fazem sentir bem só de lhe pormos a vista em cima, os mais velhinhos nos bancos do mercado, o pôr do sol e o nascer dele, a música alta, a música baixa, a descontração que não existe na capital, os cheiros, as pessoas e claro, os cheiros das pessoas. 
Aquele casal que vende os bilhetes não sabe mas cada vez que vamos à rede expressos, dá-nos um aperto tão forte no coração que torna a subida do Marão a viagem mais nostálgica de sempre. Vila Real tem esse efeito em nós, fica com um bocado de cada um. Foi lá que encontramos a segunda família, foi lá que nos encontramos a nós. Quando me perguntam o porquê de gostar de Vila Real, digo que não gosto de Vila Real pela cidade em si. Gosto de Vila Real pelas pessoas que lá conheci. Gosto de Vila Real porque foi a cidade que me mudou a vida. E lá.. fui sempre feliz. 
Até já, cidade maravilhosa. 

Adeus

15 de abril de 2015

Ninguém nos disse

Porque é que ninguém nos disse que ia ser difícil vir embora? Sim, disseram que iam ser os melhores tempos das nossas vidas, que íamos fazer amigos para a vida mas nunca nos falaram de dizer adeus a muitos deles. Os nossos pais viam-nos ir embora com sentimentos chapados na cara que nós nunca chegamos a entender nem sequer nos atrevemos a perguntar. Nós iamos felizes. Era o começar de mais uma semana perto dos amigos, perto dos horários mal estabelecidos e perto das piores refeições que alguma vez tivemos. Nada nos importa quando somos felizes. Comer a massa ou o atum de sempre era o quotidiano e uma hambúrguer com batatas fritas apareciam muitas vezes nas escolhas. Isso não importava. Nunca foi o mais importante. Quando vivemos fora da casa dos pais os jantares passam a ser reuniões sociais e os almoços, se existentes, passam a ser refeições de sobrevivência. Sandes é sempre uma boa opção.
A sexta feira aparecia e lá íamos nós. 
Um Adeus e um bom fim de semana eram tão naturais como um até amanhã.
Agora, o adeus é um adeus. 

Adeus

Deixem espaço

Nós podemos ser tudo, estrelas, enormes, esplêndidos, fascinantes, grandiosos, sábios ou até estúpidos. E estúpidos até é o que mais somos.
Não são poucas as vezes que fazemos escolhas erradas, o que não quer dizer que tivessem sido fruto de decisões pensadas, ou sequer sentidas...mas no momento, alguma coisa nos levou a fazê-las. São muitos os exemplos mas fico-me pelo, sei lá...quando alguém troca Daft Punk por Coldplay. É só...estúpido.
Por aí dizem que o café esfria. Não é errado, ele esfria mas também dá para aquecê-lo umas quantas outras vezes, mesmo que tenhamos de esperar pelo plim do microondas.
Hoje estou cheia de analogias, até estou com medo.
Só para vos dizer, meus caros, deixem espaço para fazer asneiras. Deixem espaço para saltar do barco, esfriar o café e aquecê-lo novamente. Deixem espaço para ouvir coldplay. Deixem espaço para serem estúpidos.

Adeus

20 de março de 2015

É importante

O mundo não é assim tão pequeno como muitos neste mundo dizem.
É grande. É grande para caraças e nós somos carraças para este planeta.
Quando o ego vos bater no auge é importante percebemos que é importante sabermos que é importante termos ego e é importante partilharmos isso com naturalidade. Não venham com egocentrismos gigantes aquando alguém grita que se adora. O ego mantém-nos vivos, a todos. 
A cada um de vocês, com egos que roçam o chão dos chãos, ergam-se, porra. Gritem que o mundo também é vosso e que vocês, por muito carraças que sejam, chegam para tudo, para todos e para todos os chãos dos chãos deste planeta ridiculamente gigante. É importante sabermos quando gritar ao mundo. Hoje é o dia. Hoje, amanhã e depois. 
Gritem, porra.


Shameless Season5

Adeus

6 de março de 2015

Amor moderno

Sim, o que vos vou contar aconteceu.
Fui ao Hot club com a Lana e os amigos, os quais são todos músicos de Jazz
Para quem não sabe, o Hot Club é um espaço em Lisboa que é frequentado pelos melhores nomes do Jazz português e internacional. 
Era noite de Jam. Piano ali, trompete ali, saxofone a entrar, voz a improvisar, baixo, bateria e guitarras por todo lado.
Atrás do palco há um terraço fechado, dividido por uma porta de vidro bem pesadona. Nesse espaço tinha um balcão onde estavam dois rapazes muito nórdicos, a jogar ao Gamão.
A Lana foi logo toda lampeira pedir para jogar e eu fiz companhia.
Afinal os rapazes eram alemães e simpatia não lhes faltava. Estudavam arquitetura e iam ficar em Portugal mais 6 meses. Estivemos metade da noite a falar com eles e até fiquei a saber o nome do "Correio da Manhã" da Alemanha, ou seja, o pior jornal do país da Merkel. 
Quando tentaram falar português, apercebi-me de que estou muito aquém de saber alguma coisa de alemão. Na verdade, nada sei. Nicles, nem uma palavrinha. 
Provavelmente não os vou ver mais na vida mas foi um bom bocado.
- Moving on na história da noite - 
Qualidade musical a dar forte nos meus ouvidos, lá estava eu, encantada com todo o poder instrumental que para ali ia, naquele palco.
Músicos a subir ao palco, outros a descer e a minha atenção sempre dividida entre os de sopro e todos os outros.
De repente chega um saxofonista, rompe o palco, aparece na luz e roga-me, nesse imediato, pele de galinha.
Qual Dave Koz, qual quê. 
Aquele solo de sax foi de ir ao céu e ficar lá.
Determinada e pronta para uma boa brincadeira romântica, saquei um pedaço de papel da carteira e escrevi:
Roses are red
Violets are blue
I can be here all night
Listening to you
Não sabendo nada sobre ele, assinei no fim e tentei que este pedaço de poesia moderna lhe chegasse.
Alguém decidiu que íamos embora precisamente a meio da I fall in love too easily, do Chet Baker. 
- Pior decisão de sempre -
Ao sairmos, entreguei o papel ao empregado do balcão, o qual me disse: "Ai, não sei se consigo entregar porque me vou embora, nanana (...)" e pousou o papel no lugar mais obscuro do balcão. Deu a entender que aquele papel nunca iria chegar ao saxofonista. 
No caminho para casa iamos gargalhando com toda a situação. Afinal, tinha acabado de deixar o meu nome junto ao poema mais piroso na história da humanidade, com destino a um dos melhores saxofonistas da noite.
Isto é como ter a oportunidade de dizer alguma coisa ao Jorge Palma e ficar-me por: "Escreves totil".
A manhã seguinte chegou, pego no ipod e vejo no ecrã: "Enrique (...) enviou-te um pedido de amizade".
Soltei um "' 'Tás a gozaaaaar " em alto e bom som e não pude acreditar, ao abrir todos os links e links, que era mesmo ele. 
É espanhol e disse-me no chat "Me llamou la atencion, nunca me habia pasado".

Migas, estamos perante uma linda história de amor moderno. Pelo menos tem um início que conquista qualquer um. 
Aquele pedaço de literatura resultou e eu...eu mereço palmas.


I fall in love too easily, do Chet Baker nessa mesma noite.
Rita Maria na voz, Enrique no sax tenor, Diogo Duque no trompete, Gonçalo Neto na guitarra,  Bruno Pedroso na bateria e Romeu Tristão no contrabaixo. 
Desculpem o torcicolo. 

Adeus


29 de janeiro de 2015

Mas estão com medo de falar sobre isto?


Ninguém ousa falar sobre o assunto nas redes sociais, na rua ou nos cafés. Há mais professores espalhados por este Portugal do que algum dia julgamos haver e é nestas situações que os identificamos, neste caso, não os identificando.
Para quem o assunto ainda não lhe chegou, falo dos estrondosos resultados da segunda edição da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), elaborada pelo senhor Ministro da educação, Nuno Crato. Foi num último exercício do teste que os coelhos sairam da cartola e, desta vez, não por magia, sairam para fazer chorar um país que sempre prezou o amor à pátria da língua portuguesa. Segundo os dados fornecidos pelo ministério, o exercício, que consistia na redação de um texto com um mínimo de 150 palavras, conseguiu não ser cumprido por 20% dos alunos que se dizem professores. Lê-se em vários jornais “Os resultados não foram animadores. (…) Apenas 35% não deram qualquer erro ortográfico e 20% deram cinco ou mais erros. Os erros de pontuação são igualmente frequentes.”. Como é que alguém consegue ser tão eufemista quando estamos perante resultados destes?
Não se admirem, professores universitários, quando vos chegam às mãos alunos sonhadores que querem ser escritores e jornalistas mas que, em paralelo a essas ambições, escrevem que “haviam sonhos até à uma hora atráz.”.
Preocupa-me que vinte por cento da educação do futuro esteja nas mãos destes profissionais. Fazemos das redes sociais o muro das lamentações para os mais diversos assuntos mas hoje, que Fernando Pessoa deixa de ter pátria para amar, ninguém se atreve a falar sobre isto. Porquê? Porque deve haver mais professores no facebook do que a dar aulas.
Adeus

13 de novembro de 2014

Um turco leu-me as borras

Fui fazer reportagem a um Restaurante turco, o Dervixe, o único cá em Lisboa. Para além de ser conhecido pelos pratos confecionados por mãos turcas é conhecido, também, por, no final da refeição, serem lidas as borras do café. Quem faz a leitura? O Sr.Murat, o proprietário. 
Então foi isso. Reportagem, planos aqui, planos ali, entrevistas aqui e ali, história aqui, história ali e no fim o Sr. Murat leu-me as borras. Sim, soa um bocado estranho mas não há outra maneira de o dizer.
Comecei por beber o café com o maior dos esforços. É grosso e azedo. Enquanto o repórter filmava os goles, pensava: não há café como o português!
Três takes a beber aquela especiaria não foi tarefa fácil. O último gole teve borras à mistura e tossi durante uns minutos.
Depois do café bebido, o Sr.Murat ensinou-me a fazer uns movimentos bizarros com a chávena e voilá, ficou ao contrário para repousar as borras. Depois disso, foi-me pedido que pusesse um meu anel em cima da chávena "para dar sorte". 
Dez minutos de repouso, mais uns planinhos e mais umas entrevistas.... Borras prontas.
-3, 2, 1, já pode. - Disse o Repórter.
Lá começou a leitura.
- "Está cheia de pequeninos problemas...mas vão resolver-se com o tempo. (...) A sua vida futura não terá problemas muito grandes...Está a ver estas duas riscas? Se forem curvas...a vida terá dificuldades...as suas estão quase direitas. É aqui que se vê. (...) Tem aqui muitos corações. Querem dizer que tem muitos bons amigos. Tem muita gente que gosta de si(...) Estes olhinhos todos aqui? São de rapazes que olham para si. Mas há aqui um coração com dois olhos grandes em baixo. Há um homem, um rapaz que gosta muito de si, olha por si há já algum tempo (...) Vai ter muita sorte no Amor. Está a ver estas curvas e estes corações cheios? É, vai ser muito feliz no amor, no futuro. (...) Tem aqui uns maus olhados mas são fraquinhos.(...) Em relação a dinheiro...é nestas linhas aqui em cima...quando contornam tudo...ficará rico, neste caso...as suas são médias. Nem muito dinheiro nem muito pouco. Não jogue no euromilhões porque não vale a pena."
Foi isto.
Daqui a uns anos pego no bruto da reportagem só para verificar a autenticidade da previsão turca. 
Hoje fiquei a saber que não vou ser rica mas que ao menos vou ter sorte no amor. Ah, e que há um rapaz que gosta muito de mim e que olha para/por mim há já algum tempo.
Deve ser o meu pai.




Adeus

4 de novembro de 2014

Liberdade é decisão - Vamos jantar?

Haverá algum dia melhor do que aquele em que o pequeno almoço é tomado em casa e o jantar é servido na rua?
Adoro jantar fora. Adoro experimentar aquele restaurante novo que abriu na baixa. 
Jantar fora é bom mas tomar o pequeno almoço em casa é melhor, de preferência com alguém que não queremos que saia da nossa vida tão cedo. Café quente, torradas crocantes, remelas e olhares de quem sabe muito mas não fala. 
Talvez seja por isso que gostamos tanto de dias de folga. Para além de não termos horários nem para isto nem para aquilo, os que temos podem ser partilhados com quem amamos e isso nem sempre acontece durante o resto da semana. Num dia de rotina é bem possível que o pequeno almoço não seja tomado com a companhia desejada. É bem possível que, à noite e já depois desse dia, não se "tenha cabeça" para ir jantar ao restaurante da baixa e o "juntos" passa a ser um assunto não tão na ordem do dia.
Estar junto é bom e os dias são bons quando estamos juntos. Será por isso que estamos juntos? Claramente, diria já. Será que o pequeno almoço nos sabe tão bem por ser partilhado? Será por, aquando chega a noitinha, podermos decidir ir jantar ao restaurante da baixa ou ficar ali mesmo, por casa?
Ter liberdade é isso mesmo. Decidir o que fazer. Eu tenho a liberdade de fazer o que bem entender. Posso comer o que quiser, ir onde quiser, ler o que quiser, dormir onde quiser e com quem bem me entender. Vivendo em Belém posso, perfeitamente, ir aos pastéis todos os dias e de seguida ver o sunset lisboeta no melhor spot com a Torre a cortar os raios. Posso. Sou livre só por poder fazê-lo. 
O mais curioso disto tudo é que sou capaz de me sentir muito mais livre quando decido não o fazer. Liberdade é isso mesmo. Decidir. Liberdade é saber que posso fazer tudo e decidir não fazer nada. Liberdade é decidir, não é poder. 
Quanto ao "juntos", não, não há nada mais liberto do que poder escolher com quem quero partilhar o pequeno almoço.
Não há nada mais liberto do que convidar-nos para jantar, em casa ou no restaurante da baixa. Não há nada que me transmita mais liberdade do que as decisões que vou tomando e tu és isso mesmo, uma decisão de liberdade. Da minha toda ela: liberdade.

Agora pára de ler este meu texto corrido, escrito a horas indecentes mas cheio de ideias soltas, e vamos jantar. 
-Aqui em casa ou naquele restaurante que abriu na baixa?



Adeus

21 de outubro de 2014

A minha mãe diz que eu sou chata

Quando não temos muito o que fazer, qualquer coisinha pode ser distração e motivo para iniciar conversa, por muito estúpida que seja. Sou muito boa a começar conversas só porque sim e a minha mãe, em resposta a essas conversas, consegue passar o dia todo a dizer que eu sou: 
a) Linda
b) Interessante 
c) Prendada
d) Chata

É isso mesmo, opção d) Chata.
Qualquer coisa que eu faça é motivo suficiente para ouvir a dona Paula, senhora minha mãe, a dizer: "És tão chata.". Estas palavrinhas são mais repetidas do que um video em loop (juro que para a próxima faço uma comparação melhorzinha) e são ouvidas, normalmente, quando:

- Falo muito. Ora pois bem, até é fácil justificar o porquê de estar "sempre a falar". Razão um: falo desde os dois anos, desde essa altura que uso a fala para comunicar com quem me rodeia. Razão dois: Estive três anos a formar-me em comunicação. Queriam que eu passasse o dia a fazer o quê?

- Faço perguntas e quero, incansavelmente, as respostas. Sou curiosa e ainda bem que o sou. As pessoas curiosas são as mais inteligentes. Por que é que não ficam felizes por saberem que eu sou inteligente?

- Lhe pergunto o que vamos fazer para jantar. Porque "É muito cedo! Era o que faltava estar a pensar no que vou fazer de jantar!". Depois só quando batem as oito da noite é que vai descongelar os bifes de frango.

- Quando tento ensinar alguma coisa Num dia normal, tudo o que eu penso nunca é suficiente para a minha mãe. Se eu disser uma coisa, ela vai e contradiz-me, como uma máquina automática de argumentos. Nem vale a pena achar que lhe posso dar alguma novidade muito menos ensinar-lhe alguma coisa, porque isso nunca será possível. "Eu sabia", "Achas que eu não sabia?! Não me lembrava" são normalmente as respostas da minha mãe, a mãe que sabe tudo.

Hoje, em conversa depois de jantar, perguntei-lhe:
- Queres café?
Respondeu-me: - Não, dói-me a cabeça. 
Eu, insatisfeita com a pseudo justificação, perguntei: 
- E não queres café porque te dói a cabeça? 
E ela: 
-Sim. Para a próxima digo que não quero café e acabou
(...)
Eu entendo que nem seja necessária justificação para não querer café. Não se quer e acabou. Só fiquei intrigada com a justificação... afinal, a cafeína alivia as dores de cabeça...mas "prontos", ela, como não poderia deixar de ser, nem me deu hipótese:
-Quando fores jornalista e se quiserem pedir-me entrevista eu vou dizer que tu és chata.
Respondi: 
-Sabes que...um jornalista tem de ser chato senão não consegue as respostas que quer. Quanto mais chato, melhor jornalista.
Ao que ela me respondeu enquanto se ria:
- Estou perdida!

Adeus

2 de outubro de 2014

Já te cansaste da poesia?

Acordar tarde é um dos meus planos favoritos num dia dedicado a nada fazer. 
Com o calor que está a fazer por Lisboa, só não vai à praia quem não pode e não poder não tem sido a minha ordem, ultimamente. Decidir para que praia ir, foi, provavelmente, a decisão mais difícil que tomei hoje e quando isso acontece, o dia não é assim tão mau.
Enfiei-me no comboio e quando dei por mim já tinha passado São Pedro do Estoril....Saio ou não saio, saio ou não saio...
Decidi ir até cascais, também só faltavam umas duas, três estações.
Saí do comboio e já cheirava a tias. Vá, estou a brincar. Na verdade cheirava a estação do comboio. Que desilusão!
Cheguei a uma praia bem pequenina, uma espécie de baía de água cor azul claro. Era mesmo ali que queria estender a toalha. A tarde foi passada a ouvir línguas, todas as línguas europeias, todas menos o português. Para além de uns mergulhos e de uns movimentos de pseudo-natação, li metade de um livro de poemas de Pessoa, o qual a minha mãe me deu há umas semanas.
Ao final da tarde, o sol já tinha atingido as rochas e a luz da praia ia reduzindo. 
Não há nada melhor do que o horário das cinco e meia às seis e meia da tarde, numa qualquer praia em qualquer parte do país. O sol a pôr-se, um calor confortável e a pele ganha uma cor que nunca teve durante o resto do dia.
Eram quase seis da tarde e lá estava eu, a viver esse momento do dia. Pousei o livro e pus-me a observar tudo o que me envolvia: a água, as pessoas, a areia que tinha colada nas pernas, o dourado das arribas e as cores do céu, da areia e da minha pele. Naquele momento apercebi-me da sorte que tenho, por poder estar ali a uma quinta-feira à tarde, em pleno Outono.
Ao aperceber-me dessa sorte, oiço uma voz de um rapaz que passou por mim:  - Então, já te cansaste da poesia? - Eu, perante tal pergunta inesperada, ri-me e respondi: - Não -. O rapaz seguiu caminho e eu voltei a contemplar o melhor horário da praia, mas, desta vez, sem pensar na sorte que teria em estar ali. Dei por mim a pensar que poderia ter respondido àquela voz: "Quem gosta de poesia nunca se cansa dela.".  

Praia da Rainha, Cascais


Adeus

29 de agosto de 2014

Sou de Viana mas não sou vianense

São muitas as vezes que tenho saudades de Lisboa. A maior parte delas passa em segundos. Lisboa é bela, não digo que não. Aquela aventura de se viver na capital, de querer começar uma vida nova, conhecer novas pessoas, de querer explorar todos os bares e ruas, todos os Jerónimos e todos os bairros altos e aquele querer de se querer começar a amar outra cidade...
Sim, eu sei que os três meses que estive em Lisboa não foram suficientes para ficar a amá-la como ela merece. Em contrapartida, sei que amo fácil. Espero que desta vez tenha muitos meses para amar aquela cidade. Espero até que a ame mais do que amo Vila Real. (Quem é que eu quero enganar? É impossível.)
Viana é fácil de ser batida, infelizmente. Foi a cidade que me viu crescer mas também é uma cidade cheia de pessoas mesquinhas que se preocupam mais com a vida dos outros do que com o seu próprio umbigo. Acrescentando o facto de os vianenses serem, provavelmente, o povo mais vaidoso deste país. Justifico-o facilmente: Nas festas da Agonia passeia-se o ouro todo da família e quem tem mais é o maior. Durante o ano é igual. Ou com o melhor carro, ou com a melhor roupa ou com os biceps mais bem definidos de toda a praia dos ingleses ou com outra coisa qualquer. Ah, estou a esquecer-me de dizer que os rapazes vianenses estão sempre com a depilação em dia, às vezes até mais do que muitas raparigas. Como se vê, não é fácil não amar Viana do Castelo. Confesso, no entanto, que estes dias têm sido mais difíceis no que toca a não gostar de Viana. Afinal, "Quem gosta vem e quem Ama fica" é o slogan da cidade. O qual, btw, estaria capaz de ganhar inúmeros prémios para melhor slogan turístico português.
A Romaria da Senhora da Agonia é a maior romaria de Portugal e dá luz à cidade durante cinco dias. É uma espécie de queima mas em casa dos pais. A diferença é que durante a tarde, ao invés de ressacar na cama, ressaca-se a ver mais uma procissão a arrebentar de riqueza familiar. Ah, e à noite há fogo de artifício (Serenata ao Rio Lima), para os mais melancólicos e apaixonados. Falando da Serenata, damn, Viana. Foste linda nessa noite. "Havemos d'ir a Viana" da Amália em colunas por toda a cidade e momentos como escreverem: "Viana é Amor" na ponte Eiffel deixam qualquer um de beiços. Ali, durante o show, senti saudades antecipadas de Viana, a qual, afinal de contas, é a minha cidade. Eu sou de Viana mas como não passeio ouros nem tenho os melhores biceps da praia dos ingleses, não posso dizer que sou vianense. Entendem-me?
Agora que venha Lisboa tentar bater a Rainha Vila Real e a minha Viana do Castelo. Tenta, só, capitau.



Adeus

26 de agosto de 2014

Estou muito hater

Chega-se ao facebook e só se vêem vidas felizes. Até fico deprimida. E não, não é por ser invejosa -que não sou-, é porque vocês só postam o que de feliz há e nunca postam os problemas. Assim até parece que a minha vida é desinteressante. Algum psicólogo que avance uma tese sobre isto, por favor. 

Amigos dessas redes sociais, frases como: "Quem tem luz própria incomoda quem está no escuro", "Pedras no caminho? Apanho-as todas e qualquer dia construo um castelo" estão mais batidas do que scrambled eggs. Deem um descanso aos meus olhos porque fartos de rotina já estão eles.

Hoje estou muito hater e como o que me incomoda naturalmente não basta ao meu plano diário dado pelo universo, estão, neste momento, a entrevistar uma pessoa muito estrábica na RTP1.
Acho que vou parar de escrever antes que teça comentários maldosos a este mimo televisivo.

Adeus

27 de julho de 2014

Os casórios do mês

Não deixei de reparar que esta semana foi muita gente a casamentos. Fotos dos melhores vestidos e looks por todo o lado, a mesa mais bem decorada, o bolo mais engraçado e o arroz a voar enquanto os recém casados saem da igreja. Como o número de casamentos desceu consideravelmente podemos concluir que já não estamos habituados a ver gente a casar e os que casam, esses, escolhem "O mês do julho e Agosto" para o fazer. (Sim, porque para a autora desta frase, o Julho e o Agosto são meios meses, daí juntos darem um mês (churrada nº70)). 
Eu se casasse escolhia o 13º mês. E vocês? 

Adeus

A minha Rua

São 11 da manhã e eu estou no meu spot favorito (a cama não entra no concurso), o cadeirão na varanda. A minha rua consegue ser das mais movimentadas de Viana. Sim, parece estúpido mas as pessoas gostam de uma boa pastelaria, de um bom ginásio e de um bom supermercado que dê para fugir às grandes superfícies. A minha rua tem isso tudo. Bem, ao domingo é impossível e é dos dias mais calminhos, agora imaginem. Tias e Tias de Viana a desfilarem por aqui como isto fosse a marina ou o parque da cidade. Umas trazem os filhos pequenos com as bicicletas com rodas laterais para os ensinar a andar, outras vestem-se com roupa de Domingo para irem tomar o melhor café à melhor pastelaria da cidade (é mesmo a melhor). Depois há gente normal, que felizmente é considerada a maioria que deambula por aqui. Calções e t-shirt e bora buscar um pacote de arroz ao supermercado ou meia dúzia de pães à pastelaria. Eu faço parte desta maioria. Esta rua é como se fosse o meu quintal, sinto-me com o privilégio de poder ir levar o lixo de pijama e chinelos. Mesmo assim, não o faço, a última vez que o fiz apanhei um grupo que se preparava para sair à noite e blá, foi constrangedor. Afinal, o que é que o grupo estava a fazer no meu quintal?

 Adeus

18 de julho de 2014

Talvez não queiram

No dia a seguir de escrever “Nas tardes de Verão” deparo-me com um dia chuvoso. Será algum sinal do universo meteorológico? Engraçadas, estas coincidências. Talvez não queiram que ame o vento a arrefecer-me os bancos. Talvez não queiram que ame o cheiro a oliveira. 
Talvez não queiram que te ame com carinho.
Talvez seja só da minha cabeça.
Talvez tu não queiras.
Talvez seja isso mesmo.
Tudo isso, talvez.

Adeus




23 de junho de 2014

Seus Idiotas

Agora que me distancio da realidade que se me tem atravessado à frente, percebo o quão idiotas as pessoas conseguem ser umas com as outras e pior: consigo próprias.

Não estou segura com as minhas palavras, nem com as que escrevi ontem nem com as que escrevo hoje. Estou segura, no entanto, com a existência daquela doença que tentam explicar em mil e um manuais.
O amor, essa mesmo. 
Os sintomas já muitos os conhecem mas a tranquilidade extasiante comparável ao paraíso é um dos mais falados.
(Como pode ser tão verdadeira esta descrição?)
Amar é o vicío mais tramado de todos. Chama-nos, como se fosse nossa obrigação seguir os seus ideais e, depois, atira-nos de volta à crença da descrença. Que veneno é este que nos faz ir e voltar?
Dizem por aí que nascemos para amar. Não tenho a mais pálida dúvida. Nascemos para nos envenenarmos, para tomarmos o antídoto e para amarmos novamente. Nascemos para crer, descrer e voltar a crer.  

E depois há idiotas que fingem andar envenenados...preferem crer que a doença não existe. Nasceram para quê, então?
Amem. Só estamos cá um vez, seus idiotas. 


Adeus